Hoje Lisboa tornou-se familiar aos meus sentidos. A miscelânea de cores e belezas transbordou para um patamar que tocou a empatia.
.
Graça: Hoje Lisboa soube-me bem, lembrou-me o cheiro de casa, e os gritos dos putos a brincar no jardim trouxe-me saudades. Soube bem também te saber por cá, a caminhar nas pedras que já foram o meu poiso e saber-te feliz. Também por saber que fiz parte destes teus verdes anos. E por ter passado pelos locais de sempre sob uma luz de promessa que me encheu de esperança. São Vicente: Dias destes prometem o mundo e nós acreditamos que o vamos agarrar com tudo o que temos.
Santa Luzia: Hoje a Lisboa que odeio mostrou-me o seu charme, a sua música, e o motivo por que as pessoas se apaixonam sem razão aparente.
Limoeiro: Apercebi-me que há formas e formas de olhar e que, com o espírito cheio, há diferentes formas de amar. Hoje apetecias-me nestes recantos perdidos de Lisboa. Apetecia-me ouvir fado vadio e passear no Castelo para respirar a história da cidade. Mais um encontro fortuito contigo - tocar-te, falar-te, sentir-te e partilhar contigo um pedaço da minha vida ávida de mais e mais sentimento.
Sé: Hoje Lisboa rendeu-me aos seus encantos escondidos debaixo de um véu, e quis conhecer-te noutros tempos, quem sabe naquela casa empedrada de onde se ouvem os sinos da Sé. Hoje todos os sons fizeram sentido, e todas as faces desconhecidas me falaram ao coração. Hoje soube ser feliz, mesmo com a responsabilidade a fazer pesar a cabeça.
Apeteceu-me um gelado nos degraus de uma qualquer casa de fados bairrista, ouvir um louco de Lisboa recitar uma verdade sabida muito pouco louca. Sentir as velhas muito velhas sentadas no banco da praça a comentar a vida dos outros por já não poderem errar elas próprias. Recordar espaços de sempre onde cantámos e fomos felizes, paredes que nos sustentaram em momentos menos estáveis.
Senti o cheiro da noite de St. António que se avizinha, e senti-nos este ano a saboreá-la juntos. E aprendi os passos que Lisboa nos obriga a dar de olhos fechados, ao som do eléctrico que passa apressado e barulhento.
Baixa: E já na Baixa senti o fascínio dos outros face àquilo que é tão nosso. E os confins das ruas antigas hoje falaram-me com o ser e mostraram-me o quanto já recebi desta cidade onde não quero ficar.
A verdade é que hoje apetecias-me. Queria falar-te com o coração, dizer um "gosto de ti", só por dizer, por me saber bem no momento, sem pensar em como o receberás. Falar o que penso e olhar-te nos olhos grandes que usas com tanta mestria. Queria dar-te de novo a mão e passear pelas ruas apertadas de Lisboa. Chiado: E à noitinha, depois de um pôr-do-sol estratégico, separar-me de ti, apenas feliz, sem querer olhar o futuro.
Lisboa, afinal de contas, já nos proporcionou alguns momentos bons.
.
É isso: hoje apetecias-me. Só tu.
E, mesmo assim, basta-me saber que hoje Lisboa te acolhe, que te partilhou comigo, pelo tempo que foi.