
Lembro-me daquela rua cheia de vida, apesar de fria, da estrada de alcatrão escuro, dos edifícios, todos iguais mas para nós tão distintos. Lembro-me do nosso, dos sofás de partilha, das escadas de segredos, da cozinha de risos. Recordo o meu quarto, o 9, como se lá estivesse, quando tudo aquilo gritava esperança, futuro, felicidade. Talvez aquele corvo na janela ao acordar fosse realmente um prenúncio de morte.
Agora, à distância dos anos que passaram, custa rever tudo aquilo destruído, velho, pronto a ser demolido. Só, assim, sem piedade. Custa ver o local de tantas memórias, das felizes e até das amargas, ter um prazo de validade a chegar ao fim. Uma cidade fantasma que se fez velha e solitária, e que acolhe hoje os que ainda nela veêm a beleza dos traços que sobreviveram ao abandono.
Parece que ainda oiço os ecos desses tempos, dos risos a ecoar pelos quartos, das tentativas de fuga, da relva verde a estender-se pelo horizonte. Nostalgia só. Talvez tivesse sido melhor só recordar, mas a realidade às vezes fala mais alto e temos de abrir os olhos ao que se passa lá fora.

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