terça-feira, outubro 24, 2006

A. nossa história

Gostava tanto desses teus caracóis loiros e rebeldes ao vento. Em dias de praia a ver um pôr-do-sol abraçados enquanto me cheiravas o sal do cabelo castanho e eu observava as tuas sardas por baixo desses teu olhos pequenos e perspicazes. E punhas-te a trautear uma canção com essa tua voz rouca e eu derretia completamente, apertava-te a mão com força para deixar passar o arrepio que a tua voz me provocava.
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Irritavas-me tanto, tantas vezes... Era difícil estarmos de acordo em alguma coisa. Mesmo quando estávamos fazíamos de tudo para não estar. Gostavas de me abraçar em frente aos teus amigos, lembras-te? Chateavas-te quando eu flirtava com outros rapazes, mas fazia-o só para ver a tua boca fechar com força e as veias dos teus braços saltitar enquanto te detias porque tinhas de manter essa tua postura de garanhão que não se deixava apaixonar por nenhuma miúda. Eu entrava no teu jogo, também me mantinha na minha quando te via com outras raparigas, sorria quando te via quase a beijá-las só para me fazeres ciúmes. E o meu sorriso matava-te, mantinha-te na dúvida.
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Quando não estava contigo sentia-me agoniada, sem chão. Nunca permitiste dar-te demais nem eu me permitia entregar mais do que alguém da tua espécie merecia. Tudo muito bonito na teoria, já na prática entregámo-nos, demo-nos a conhecer e apaixonámo-nos. Porque foi o que aconteceu...
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Discutíamos imenso mas sempre com um sorriso, gostávamos de fazer as pazes, de ter um motivo para nos beijarmos e abraçarmos porque éramos orgulhosos demais para ser românticos assumidos.
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Ninguém de fora percebia a nossa relação, diziam que agíamos como crianças, que ninguém precisava de motivos para beijar ou abraçar o companheiro. Nós ríamo-nos, trocávamos um olhar e um sorriso pois ninguém percebia o nosso "jogo", a nossa história, eram meros espectadores. Não entendíamos nenhuma relação segura, comodista, conformista...
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Queríamos o sentimento, a partilha, o conhecimento. Sabia que estavas lá sempre para mim. Era a ti que eu despia a minhas alma e me aconchegava nos dias de Inverno para me consolares dos males do mundo com um beijo na testa. Fazias-me rir de tudo, ver o lado positivo das coisas, o teu humor mudava toda a minha disposição.
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Viajámos imenso sempre com uma máquina atrás para registar materialmente algo que nenhum dos dois esqueceria, eras a minha constante preferida nessas viagens, pouco me interessavam os locais pois só a tua companhia lhes conferia beleza aos meus olhos.
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Coisas fúteis eram dispensáveis. Nunca gostei de flores, preferia um grito embaraçoso no meio da rua, um beijo por baixo de um chapéu de chuva, uma gargalhada sincera por uma qualquer estupidez.
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Nunca precisámos de sorrir para mostrar aos outros o quão apaixonados estavámos, guardávamos os nossos momentos para nós, invejosos da partilha e da possibilidade da magia se quebrar caso os expuséssemos.
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A única coisa qua fazíamos como casal era dar as mãos, adorava sentir um pedaço de segurança no turbilhão que era a nossa relação.
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Completávamo-nos tantos, adorava-te tanto... Irritavas-me tanto!
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Não percebo porque escrevo no passado. Tu és o presente, hás-de sê-lo sempre. Porque em mim viverás para sempre, és parte da pessoa que sou. Com quem quer que eu esteja, essa pessoa leva um pedaço de ti por acréscimo.
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A.
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Adorava os nossos silêncios. Sempre foram os nossos melhores momentos.

segunda-feira, outubro 23, 2006


"Nunca te pedi que me compreendesses, apenas que me amasses."
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E ela continua a dar à Paixão a irracionalidade que ela lhe exige!

domingo, outubro 01, 2006


Saber que estavas lá para me apoiar era o bastante. Entrar na cama, aconchegar-me no cobertor e dar-te a mão depois de um dia longo sempre foi a minha parte preferida do dia. Encaixar em ti enquanto me abraçavas e eu sentia o teu corpo quente e calmo, e os teus beijos apaziguadores no meu pescoço. Dormia sempre tranquila quando estavas ao pé de mim e me sussurravas com carinho palavras só nossas, para que mais ninguém as ouvisse.
Quando olho para trás e vejo tudo o que passámos não evito soltar um sorriso. Nunca acreditaram que tivéssemos futuro, ninguém, desde o primeiro momento. Mesmo eu, confesso, só acreditei quando me deixei levar por ti, quando me permiti sentir e arriscar. Sempre gostei de riscos e tu sempre gostaste disso em mim.
Fazias-me sentir segura, mais do que qualquer outra pessoa e, consequentemente, dependente. Mas de ti nunca me importei de depender. Completavas-me de tal modo que nunca imaginei um futuro sem ti. Ainda hoje não o imagino.
Quero mais, sempre mais. Esgotar as possibilidades e amar-te ao máximo, revolver as entranhas e entregar-te os meus orgãos porque já são teus de qualquer modo. Tu chamavas-me "parva" e dizias que não me exigias tamanho sacrifício, que os devia manter pois sem eles não sentiria.
As tuas palavras sempre foram sensatas, como tu. Sempre foste um modelo a seguir, a pessoa perfeita, o apoio incondicional.
Hoje não estás aqui, saíste um dia depois de um "Amo-te" sentido e nunca mais voltaste. E o pior de tudo é que a razão e os motivos porque o fizeste eram os mais correctos e sensatos possível...

E, de um momento para o outro, o silêncio. O silêncio ensurdecedor na noite já clara apenas quebrado pelas incessantes batidas do coração que ecoavam cada vez mais alto.
O fim, a sensação de impotência face ao inevitável, ao incompreensível.
Ela nunca gostara de finais. Sempre preferira um romance em aberto, um filme rodopiante com inúmeras possibilidades, relações com reticências e com futuro. Um dia claro de sol no Inverno, um temporal quente no Verão.
Gostava de chuva, ao contrário da maioria. Sempre que chovia ela parava, fechava os olhos e deixava-se levar para outros mundos.Isto quando não se descalçava, soltava o cabelo e ia dançar para a relva, sorrindo.
Mas naquele momento tudo isso acabara, tudo deixara de fazer sentido. Inevitável. Sensação de impotência "Pronto, é isto! Acabou!". Resignação.
Tinha sede de mais, o sangue corria-lhe ainda jovem nas veias que cortara de modo preciso. "Então é isto, é esta a sensação!".
Os seus olhos embaciavam-se numa névoa que a cobria como se já não pertencesse a este mundo que nunca considerou seu.
E, no entanto, apesar de tudo, ela sorria. Como sempre o fez. Morria como sempre vivera: bela, jovem e curiosa. "Quem diria", diziam eles, "logo ela que sempre foi tão simpática, quem diria que faria uma coisa destas...".
Ao que parece ninguém nos chega mesmo a conhecer, ao que parece morremos mesmo sozinhos.
O corpo jazia inerte sobre a relva molhada das primeiras chuvas de Outono. Um bilhete borrado dizia: "Fui feliz!".