Conduzimos a noite toda por aquelas estradas de alcatrão velho, no carro que o papá te deu depois de tanto insistires. Tu a conduzir serenamente, sem pressa de chegar ao destino - tamborilavas com os dedos no volante e na caixa de velocidades, enquanto balbuciavas intermitentemente as letras do CD que puseste a tocar sem me pedires sequer opinião ("eu conduzo, eu escolho a música!"... whatever!). Tinhas vestida aquela t-shirt verde que eu adoro, os óculos escuros e a fita que me roubaste na paragem de serviço (ridícula no meio de tantos semi-caracóis).
Eu ia ao teu lado, descalça, pés no tablier e um frasco de manteiga de amendoim nas mãos que saboreava enquanto olhava para a paisagem e imaginava o que lá se teria passado em séculos anteriores. Comia a manteiga às dedadas - desculpa, mas há coisas que se comem às dedadas e a manteiga de amendoim está no topo dessa lista.
De vez em quando lá trocávamos umas palavras sobre um ou outro assunto, mas graças a Deus sempre compreendeste que as viagens de automóvel comigo se fazem em silêncio.
Eram 23:49 quando a Lua começou a aparecer no horizonte, por detrás das casas, tão perto e tão laranja. Então, tu paraste o carro, tiraste os óculos, e a fita do cabelo enquanto te despenteavas para te penteares. Saiste numa paragem de bus perdida no meio do nada, deste a volta ao carro e estendeste-me a mão para te acompanhar.
- Que se passa? - disse enquanto me sentava no capot;
- Um dia... - apoiaste-te no capot de costas para mim enquanto olhavas para a lua e eu te abraçava - Um dia roubo-te a lua, miúda!
- Rouba-la de mim ou para mim?! - ri-me.
- Ai és tão chata, meu! Roubo-a para ti. Queres? - os teus olhos grandes brilhavam sérios.
- E depois o que fazia com ela? Ia perder o brilho se a fechasse numa gaveta. Ou não? - perguntei pensativa.
- Pois, suponho que sim!... Mas então fazemos assim: vamos partilhar este nosso momento com ela, e pedir que ela o grave. Assim se um dia estivermos longe um do outro, voltamos aqui em memória e enchemos o peito de ar com o brilho desta lua cheia. A partir de hoje, é Ela a nossa dona e não o contrário.

As coisas mais puras, os sentimentos mais verdadeiros, a Natureza, têm de ser livres, belos e selvagens para manter o seu brilho. Nem sempre podemos prender uma coisa e esperar que o cativeiro não destrua a sua beleza selvagem...

5 comentários:
AMEI. Lágrima nos olhos...
"Nem sempre podemos prender uma coisa e esperar que o cativeiro não destrua a sua beleza selvagem..." fdx tão verdade...
deixemos tudo em liberdade e sejamos livres
LINDO!!! mesmo, mesmo, mesmo.
nao me consigo expressar de outro modo.
tudo tao verdade, tudo tao bonito =)
Dos textos mais bonitos e reais que li nos ultimos tempos!!
:)
Helena Antunes
Manteiga de amendoim!! Para comer à colherada, sem dúvida ;)
adorei* =)
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